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terça-feira, 12 de maio de 2009


Querida Dona Rose,


Como era de se esperar, seus bombons recheados foram um sucesso. Louise ficou envergonhada por você ter tido o trabalho de fazer os bombons, mas eu disse que você não ia me deixar vir sem trazê-los.

O festival foi muito bonito, mas aconteceram algumas coisas estranhas. Na segunda noite ouvi um barulho de portão de ferro vindo das casas próximas ao centro. Louise estava junto comigo e fomos ver o que era, vimos então um homem caído na rua. Lembro de quando você me disse que quando uma pessoa se torna médico e gosta do que faz, não consegue nunca negar a profissão. Ele tinha levado uma pancada forte na cabeça e tentou caminhar até onde tinha mais gente, mas não aguentou muito tempo. Mais tarde ele disse que estava trabalhando como segurança do banco. Mas até agora não teve nenhuma notícia de roubo. É estranho, pois tenho quase certeza de que a pancada não foi acidental. Mas eu sou um médico, não um investigador criminal, então tento não me preocupar muito mais com isso. O segurança já está passando bem, portanto estou mais tranquilo.

Falando em investigações e mistérios, Louise anda recebendo poemas de um admirador secreto. Diz ela que não faz idéia de quem seja. Durante o festival ela recebeu mais um poema e quase explodiu de vergonha quando a forcei a me mostrar. Seja lá quem for, é um ótimo poeta.

Lembra-se do Sr. e Sra. Brewer? Eu e Louise fomos acolhidos por eles assim que chegamos à cidade, ainda crianças. Como ela não apareceu no festival, fui visitá-los. A Sra. Prudence estava bem fraca logo que cheguei. Mas depois que passei a cuidar dela, tem apresentado melhoras significativas. Parece-me que estava tomando alguma medicação errada, ainda não tenho certeza.

Ficarei por aqui até o fim do mês, espero que o pessoal do hospital saiba se virar mais um tempinho sem mim. Continuarei a mandar notícias.

Um Abraço,


William.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008


Querida madrinha,


Ainda estou em Londres. Peter acabou tendo que ser internado num hospital próximo à estação e está em observação, acompanhado de perto por mil enfermeiras. Eu, obviamente, tive que ficar por aqui; hospedei-me num hotel horroroso ao lado do hospital e a partir de então tenho dormido pessimamente. Acredite, tive pesadelos. Creio que a senhora ficaria horrorizada, se visse a comida que servem neste lugar. Partiremos ainda hoje, sem mais tardar; o Dr. Allerton afirmou que Peter já está bem.

Infelizmente, encontramos esse médico na estação, que socorreu Peter e o trouxe para este hospital, arruinando o nosso plano de levá-lo ao lugar combinado. A substância que a senhora me deu fez o efeito esperado e teríamos conseguido mantê-lo aqui, com o pretexto de que estava muito doente para viagens longas. Com isso tudo que aconteceu, não pude fazer meu noivo desistir de ir àquele fim de mundo. Porém, eu tenho certeza de que ele não ficará naquele lugar por muito tempo; passou tantos anos longe da família que, acredito, não agüentará morar com eles outra vez, ainda mais longe da cidade. Eu não agüentaria.

Por outra infeliz coincidência, o tal Dr. Allerton descobriu-se conterrâneo de Peter. Não acreditei na minha falta de sorte. Agora, terei que tomar cuidado com o que disser, pois o doutorzinho poderá matraquear por aí uma versão diferente da minha e terminar me desmascarando. Como não sou tola, escrevi à irmã caipira do meu querido noivo e contei-lhe a minha história, antes que boatos indesejáveis lhe chegassem aos ouvidos.

Despeço-me agora, madrinha, pois nosso trem sairá em menos de duas horas. Fique sossegada; escrevo-lhe do fim do mundo, logo que puder. Com carinho,


Giovanna


sexta-feira, 12 de setembro de 2008


Querida irmã,


Finalmente estou voltando para casa. Peter, o rapaz de quem falei na última carta, melhorou bastante. A moça que estava com ele, a srta. Wood, não me deixou examiná-lo direito. Ficou conversando comigo desesperada, querendo saber o que poderia ter causado o desmaio do jovem, e listou todos os hábitos alimentares, falando do histórico dele, parecia uma mãe em prantos querendo saber onde errou com o filho. Mas esse tipo de gente não é tão anormal por aqui, todos acham que os novos medicamentos são milagrosos e que nada de errado pode acontecer.

Quando consegui voltar para o quarto do paciente, ele já estava acordado e tão bem como se nada tivesse acontecido. Deve ter sido apenas uma queda de pressão, mas o fato de ter sido tão repentino me assustou bastante.

Descobri que Peter também está indo para a cidade, para o Festival. Ele é filho de Christopher e Margareth Johnson, veio estudar direito aqui em Londres e agora que acabou o curso pretende assumir os negócios do recém falecido pai.

Estamos voltando juntos no trem da quinta-feira, então não estaremos atrasados para o início das festividades. Nem imagine o problema que tive para mudar a passagem, Louise, tive que conversar com o gerente da estação para explicar o motivo.

Não vou me estender muito mais, afinal logo poderemos conversar pessoalmente.

Até Breve,


William


terça-feira, 19 de agosto de 2008


Querida Elise,


Estou confusa. Na verdade, estou bastante chocada e não sei ao certo como estou conseguindo escrever estas linhas, de tanto que tremem as minhas mãos. Esta manhã, depois da missa, fui olhar minha correspondência e o que encontrei me deixou sem palavras. Esperava ansiosa por mais alguma notícia de William, sobre seu retorno, mas acabei por descobrir um pequeno envelope com uma mensagem bem incomum, que transcrevi abaixo, para você ler.

Nunca antes havia recebido um poema de amor e não sei bem como reagir diante deste. Estou encantada e curiosa e, ao mesmo tempo, apavorada. Você sabe que não saio muito de casa e conheço poucas pessoas. Onde posso ter visto esse poeta misterioso? Ou melhor, onde ele pode ter-me visto? Na igreja, sem dúvida... Você vive dizendo que não saio de lá. E tenho que confessar que, mesmo receosa, gostaria de ir agora ver se o encontro.

Oh, que horror! Aqui estou eu usando a sagrada igreja para fins mundanos. Sinto-me culpada, mas acho que não mais conseguirei sair de casa sem olhar à minha volta constantemente, em busca de um rosto que sequer sei a quem pertence. Estou eufórica, Elise, estou confusa. Oh, meu Deus...

Vou à igreja agora, preciso me confessar.

Um abraço, minha amiga.


Louise


domingo, 6 de julho de 2008


Querida Louise,


Como estão os preparativos para o Festival da Colheita? Estou ansioso para ir, mas dessa vez vou me atrasar um pouco.

Ontem me despedi do pessoal do hospital, todo mundo lá sabe que nessa época eu tiro férias e fizeram até uma festinha. A Dona Rose fez uns bombons de chocolate deliciosos, daqueles recheados que você adora.

Hoje de manhã fui para a estação pegar o trem das nove e fiquei surpreso em vê-la tão cheia. A cada ano que passa as pessoas usam mais os trens, como se fosse uma novidade que todos querem ver. Muitos conversavam animados, esperando a máquina chegar.

Eram quase nove horas quando um rapaz bem do meu lado desmaiou, quase me derrubando. Todos o olhavam assustados, havia um grupo de amigos com ele e disseram que ele simplesmente caiu. Não sei ainda o que é, mas o trouxe direto para o hospital e sinto que devo ficar até que ele melhore. Esperei a situação acalmar um pouco para escrever e pedir que não se preocupe com minha demora. O jovem ainda não despertou e tudo que sei dele é que se chama Peter. Daqui a pouco vou conversar com uma moça que estava na estação junto com ele e veio acompanhá-lo.

Desculpe por estar atrasando minhas férias, sei que você se preocupa comigo por eu trabalhar demais, mas não posso deixá-lo aqui, Deus o fez desmaiar em meus braços por um motivo e não posso ignorá-lo.

Espero chegar a tempo de ver o Festival. Um grande abraço do irmão que a ama muito,


William