segunda-feira, 15 de setembro de 2008


Caro amigo James,


Sinto-me deveras aliviado em saber que o motivo da partida não foi a nossa briga. Mais ainda por você me ter perdoado. Fico feliz que tenha voltado para a sua amada Irlanda, terra da qual nunca esqueceu e vivia com saudades. Pode ficar tranqüilo que farei sua mãe saber da sua boa saúde e que o destino tem sido generoso consigo. Depois, com calma, você me conta os motivos tão imperiosos que demandaram a sua urgente partida.

A propósito, de quem você falou quando disse que há alguém que deve mudar? Que espécie de mudança é essa? Veja lá o que você vai fazer, não vá tomar uma daquelas suas decisões arrebatadas e irreversíveis. Sei que quando coloca uma coisa na cabeça, vai até as últimas conseqüências.

Ah, tenho uma novidade para contar-te! Acreditas que aquele patife do Ted me escreveu?! Quer retornar para descansar em casa no festival, como se nada tivesse acontecido! Sabe que ele agora é faxineiro? Que ofensa! Como eu o odeio! Quando papai souber disso, vai morrer de desgosto e isso eu não posso permitir. Você sabe que a valentia não é das minhas virtudes, mas pelo meu pai, engulo meus medos passo por cima de quem for! É a única coisa boa que me resta na vida. Mas isso é assunto para outra carta.

Bem, amigo... Muito me alegra saber que estás feliz. Quanto a mim, não me restava outro destino, você previamente revelou o que me estava reservado e eu, surdamente, não te dei ouvidos. Preciso de sua ajuda. Sabe que, mesmo não seguindo sempre seus conselhos, tomo-os como baliza. Lembro, James, aqueles velhos dias quando os dois pensavam sobre as mulheres... Discutíamos bebericando, saboreando as palavras e o velho brandy.

Sabe que há grande semelhança entre a lua e as mulheres no que concerne à natureza? A lua desliza sorrateiramente pelos telhados das casas de nossa bela cidadezinha com passos de gato – esse felino que tem um pé no além - deitando-nos um olhar de Cigana, mostrando uma luz que finge ser do sol que carrega em seu ventre. Promete ao Astro-Rei todo o infinito e as suas estrelas e este, embasbacado, a persegue apaixonadamente por toda a existência.

A lua embusteira, a lua dos amores, a lua das mulheres e dos dissimulados poetas, lua dos lobisomens, desgraçados pobres coitados amaldiçoados, a lua que desfila num tapete negro de veludo salpicado de estrelas, envolvendo e acobertando os amantes com seu véu gris tão cúmplice. Foi assim que os encontrei aos beijos nas margens do lago prateado em noite de lua cheia.

Elas não conhecem lealdade nem amizade. “És escravo? Não poderás ser amigo. És tirano? Não poderás ter amigos. Houve durante muito tempo na mulher um escravo e um tirano escondidos. Por isso a mulher ainda não é capaz de amizade, apenas conhece o amor”. Tudo isso me foi dito por um velho sábio, num livreto que caiu em minhas mãos.

Enfim, amigo, foi isso que me ocorreu. Ando cabisbaixo na rua, com o chapéu enterrado na cabeça, cobrindo o rosto de vergonha, paranóico, achando que as pessoas me olham com pena ou deboche. Você sabe, a nossa cidade é pequena e alguns já sabem, a história não vai demorar a cair no populacho e eu vou ser a piada da cidade. O pior é que não tenho coragem de lavar minha honra com sangue. Não sei mais o que fazer!

Você conhece todo o contexto. Agora, de longe da situação, talvez consiga enxergar o quadro melhor que eu. Por favor, me dê uma luz! Já não sei mais a quê me agarrar.

Um forte abraço do seu bom amigo,

Robert.

7 comentários:

Helô disse...

Agora sim!
Agora Robert tá mostrando a verdadeira face.

Paulinho disse...

Nem de longe.

Marina disse...

Acho que deu pra "pegar" mais dele nessa carta.

Bruno Malveira disse...

ah... eu só consigo rir, então não tem como eu fazer um comentário interessante aqui... ainda :P
hehehe

Tiago disse...

Pegou, né, Marina?

;)

Marina disse...

Robert não me interessa, bêibi. Você sabe que James é meu amor eterno.

Alexandre disse...

Oxe! Se ele não tem coragem de "furar o cara de bala", devia contratar alguém que tivesse...
=P